terça-feira, 24 de agosto de 2010

A Mágoa Eternizada - Capítulo II

A rua estava praticamente deserta. Poucas pessoas havia sobre a calçada. Algumas delas passavam pelas lojas, a olhar as vitrines, a notar o preço, e a continuar seus caminhos. Alguns poucos carros quebravam o silêncio daquela tarde. Luciano olha para o outro lado da rua, Miguel nada olhava. Estava preocupado ainda com os últimos acontecimentos. Queria apenas chegar rápido ao hospital para que pudesse receber notícias de sua irmã. Um carro parou a sua frente. Vermelho, de vidros escuros, estes se baixam e mostram uma figura feminina já conhecida.
-Para onde os garotos estão indo, posso saber? – Era Sheyla, voltando das compras. Ria-se do próprio comentário, alegre como sempre fora.
-Estamos indo ao hospital, visitar Victoria – Respondeu Luciano, baixando um pouco a cabeça -. Pode nos dar uma carona?
-Entrem, entrem. Teria ainda que deixar essas sacolas de compras em casa, mas depois eu vejo isso.
Abriu a porta traseira do carro para que os dois entrassem. Luciano segurou-a para que Miguel pudesse entrar. Acomodadando-se, fechou a porta e seguiram caminho rumo ao hospital, que não estava muito longe de onde estavam.
- Então – começou Sheyla -, o que Victoria tem?
- Não se sabe – respondia Miguel -. Hoje de manhã não conseguia abrir os olhos. Estava vermelha, suava frio, mas não acordava. Os médicos não sabem qual a causa desses sintomas. Creio que ela irá passar esta noite sob observação, então não poderá ir para casa. Devo ficar com ela no hospital, já que mamãe trabalha amanhã.
Dizendo isso, Miguel abaixa a cabeça, contendo as lágrimas firmemente. Luciano, que estava ao seu lado, passou seu braço por sobre o ombro de seu amigo e puxou-o para seu ombro. Não via jeito de consolá-lo. “Fora tudo tão de repente. E ele ama a irmã dele, como eu amo a minha. Não deve ser fácil suportar essa dor”, pensava Luciano.
Miguel chorava calado nos ombros de seu amigo. A dor em seu peito era muito grande. A qualquer momento, sabia que poderia perder sua irmã. “Ainda ela é tão jovem e bela. Por que essas coisas acontecem logo com ela, que sempre foi uma garota tão boa para com todos?”. E chorava ainda mais frente a seus pensamentos.
Victoria era realmente jovem e bela. Tinha apenas 16 anos, sendo dois anos mais nova que Miguel. Cabelos negros como a noite, formando livres cachos sobre suas costas. Olhos de um castanho distinto, misterioso. Pele alva, suave. Era alta para sua idade: 1,75 de altura, pesando apenas 53 kg.
Parando o carro em frente ao hospital, Sheyla destrava as portas do carro e abre sua porta para sair. Luciano dá alguns leves tapas no ombro de Miguel, que levanta, secando seus olhos ainda molhados pela dor. Olhando ao redor, Miguel percebe já terem chegado ao destino. Abre a porta a seu lado, sai do carro e se espreguiça, enquanto deixa a porta bater.
Entrando no hospital, vão direto falar com a recepcionista.
- Boa tarde. Gostaríamos de saber em qual quarto a senhorita Victoria Cardoso está – inicia Sheyla, a menos tímida do grupo.
-Só um minuto que eu já vejo pra vocês – respondeu a atendente.
Dizendo isso, virou-se para trás. Havia uma pilha de papéis sobre a mesa, com o nome de todos os internados e alguns documentos do hospital. Abaixou os oclinhos de meia-lua e, pegando um dos papéis na mão, começou a examinar linha por linha, passando o dedo calmamente sobre cada nome. “Há bastante gente internada nesse hospital”, pensava Sheyla, assustada. Parecia que aquele momento durava uma eternidade. Eram muitos nomes e Catarina não parecia estar com muita pressa.
Catarina, conforme lera Sheyla no crachá, era a recepcionista. Aparentava já certa idade. Sua pele estava marcada pelos traços da idade: rugas se mostravam por todos os lados em seu rosto. A vista já cansada, aparentando certa dificuldade em enxergar, o que dificultava trabalhar mais rápido. Trajava o uniforme verde do hospital, com os óculos postos sobre o nariz, curvo, e presos por um fino fio de nylon por trás do pescoço.
-Aqui está – dizia Catarina -. Quarto 201. Segundo andar, última porta a esquerda.
-Obrigada – respondia Sheyla. “Ufa! Pensei que eu passaria o resto de minha vida esperando ela achar o nome de Victoria no meio de tantos”, pensava, enquanto andava com Miguel e Luciano em direção às escadas.
Subindo as escadas, notou que havia um quadro pendurado ao lado da porta que dava acesso ao 1º andar. Uma pintura à óleo, abstrata, que mostrava algo que parecia um homem em desespero sobre um fundo vermelho e preto. Ao focar o quadro, parecia que a parte vermelha movimentava-se dentro do quadro. “Um dos efeitos de um quadro simbolista”, pensava “é criar essa idéia de movimento. Qual o nome que se dava a isso mesmo?” Não conseguindo se lembrar muito bem, decidiu esquecer o quadro, embora fosse uma imagem muito interessante, conforme achava ela.
Ao lado da porta do 2º andar, havia outro quadro. ”O Santo Sacrifício” era o que se lia sobre o quadro. “Muito bonito este quadro. Parece uma arte barroca”, pensava Sheyla, ainda. No quadro, havia um cordeiro branco, morto com um punhal sobre um altar de pedra. Sob o cordeiro, havia algumas palavras. Aproximou-se, para tentar ler, mas parecia estar apagada demais para se conseguir entender alguma coisa.
Entrando na porta que dava acesso ao andar, viraram à esquerda e seguiram em direção ao quarto 201, conforme fora indicado. Ao chegar lá, deparam-se com Norma e Luis, pais de Victoria e Miguel. Aquela se encontrava com a cabeça nos braços do marido, enquanto este olhava para saber quem vinha. Ao notar quem vinham, deu um meio sorriso de satisfação pela visita. Seu rosto também se mostrava profundamente deprimido. Estavam em pé, em frente a uma das camas do hospital, onde Victoria deveria estar.
Miguel é o 1º a ir, acompanhado de Luciano e Sheyla. Ao visar quem estava sobre a cama, Sheyla põe a mão sobre a boca, Luciano dá um passo para trás. Aquela que estava ali não era a Victoria que conheciam. Estava, agora, mais pálida que sempre fora, o que deixava à mostra todas as veias do rosto e do corpo. Seus olhos estavam inchados, em uma profunda vermelhidão. Seus cabelos estavam sem brilho, fracos, quase grisalhos. Estava coberta de uma coberta amarela do hospital, que aparentava estar deveras suja. Não se perceberia jamais se a cor natural daquela coberta era amarela ou se um dia ela já fora branca. Entretanto, um dos pontos que se deixava bastante notar eram os olhos da moça: continuavam fechados. Desde que amanhecera o dia, Victoria não acordara. Mas ela ainda estava viva, e todos sabiam disso. Seu coração ainda batia e ela ainda, fracamente, respirava, sem necessidade do uso de qualquer aparelho que fosse. Usava somente um aparelho para medir seus batimentos cardíacos, que se mantiam estáveis.
Um homem entra na sala. Era baixo e possuía poucos cabelos, e estes já grisalhos. Sua face era séria e possuía um grande e curvo nariz. Sobre este, usava óculos de um grau muito forte, tamanha era a grossura de sua lente a fazer parecer que seus olhos esbugalhavam-se. Trajava uma roupa branca e trazia consigo um bloco de notas e uma caneta. Sobre seu jaleco, havia um bótom escrito: Dr. Andrade. O homem se aproximou da cama onde estava Victoria. Olhou diretamente para sua face. Olhou o aparelho que estava ligado a ela. Fez algumas anotações em seu bloco de notas e virou-se para Luis.
- Houve algum distúrbio da paciente, algo diferente ou anormal? – Perguntava o Dr. Andrade. Sua voz era um pouco falha e rouca, embora mantivesse o tom grave.
- Não, doutor. Victoria continua assim desde que chegou. Vocês teriam alguma idéia do que está acontecendo com ela, doutor? – Questionava, atônito, o pai de Victoria.
- Ainda não conseguimos encontrar o que há de errado com sua filha – Respondia, em tom calmo e indiferente.
Dr. Andrade olhava, outra vez, para Victoria, a fazer algumas poucas outras anotações. Luciano olhava para toda aquela cena, tentando compreender a situação. Perdido em meio a seus pensamentos, sente um leve arrepio a percorrer-lhe o íntimo quando o velho homem olha diretamente para dentro de seus olhos. Sentiu-se estranho, como que um vento cortantemente gelado entrasse por suas veias e artérias, a se dissipar por todo seu corpo. O médico levanta uma de suas sobrancelhas, vira-se, e segue seu caminho em direção à porta, sem mais falar. Tudo aquilo fazia Luciano sentir-se aflito, com medo. Sentiu vontade de agarrar-se à irmã e abraçá-la nesse momento, do mesmo modo que fazia quando era mais novo. Entretanto, voltou à realidade quando ouviu a voz de Miguel, que durante muito tempo manteve-se calada.
- São seis e meia – dizia, olhando para as horas em seu telefone celular. – Parece que passaremos a noite aqui hoje. Vão para casa, meus pais. Deixem que eu a faça companhia pelo resto da noite. Vocês já devem estar cansados. Ficaram aqui o dia todo hoje e merecem descansar.
Luiz e Norma se olharam por um instante. Eles estavam realmente cansados. Estavam ali desde as dez horas da manhã. Esta consentiu com a cabeça, então aquele se pronunciou:
- Tudo bem, meu filho. Vamos para casa sim, mas prometa-me que ficará tudo bem por aqui. Não quero que se canse por nossa causa.
- Tudo bem, papai. Podem ir despreocupados – Dizia Miguel, com um real tom de confiança em sua voz.
Sua mãe deu uma última olhada em sua filha na cama e foi de encontro a Miguel, abraçando-o e abençoando-o, como toda mãe. Seu pai o fez igualmente. Despediram-se dos demais na sala e saíram do quarto. Ficaram um tempo a olhar um para o outro. Miguel foi o primeiro a falar:
- Caso queiram, podem ir também, meus amigos. Ficarei muito bem aqui, não se preocupem. – Dizia Miguel, procurando sorrir para os dois à sua frente.
- Tem certeza de que vai ficar bem, Miguel? – Perguntava Luciano, preocupado com seu amigo. – Se quiseres, posso passar a noite aqui contigo.
-Agradeço muito, mas não é necessário, meu amigo. Pode ir descansar que eu tomo conta aqui. Você tem que estudar pra faculdade amanhã ainda e sua irmã também. Podem ir despreocupados que vai ficar tudo bem.
-Tudo bem então – Quem falava agora era Sheyla. – Vamos para casa, mas amanhã de manhã, antes de irmos para a faculdade, passaremos aqui.
-Tudo bem então, meus amigos. Muito obrigado por tudo – Concordava Miguel.
Despedindo-se, deu um carinhoso abraço em Sheyla e um forte abraço em Luciano. Este último, então, demorou-se um longo tempo. Precisavam sentir próximos desse jeito, e não haveria meio melhor que um abraço forte e longo.