Era uma fria tarde de inverno. Luciano estava em seu quarto, deitado, lendo um romance do século XIX quando sua irmã mais velha o chama na sala de estar. Luciano era um jovem rapaz de 17 anos que vivia com sua irmã, visto que seus pais morreram havia dois anos. Tinha cabelos loiros, quase à altura dos olhos, estes de um profundo castanho-claro, tal qual os de seu pai. Alto, com 1,82 metros de altura, e magro, 66 kg, ganhara um pouco de massa muscular com alguns meses de academia e malhação. Pele branca e suave, nariz pequeno e lábios carnudos. Gostava muito de ler e cursava seu 1º ano na Faculdade de Língua Estrangeira. Levantou-se da cama com um pouco de má-vontade. Sua cama ainda estava desarrumada com vários livros sobre a mesa de cabeceira. Desceu as escadas de mármore que ligava seu quarto à cozinha. Olhou um pouco os armários e a geladeira. Estavam já velhos, como os demais móveis da casa. Seguiu para a sala de estar, a fim de ver o porquê de sua irmã tê-lo chamado.
- Estou indo ao supermercado fazer as compras. Quer que eu compre alguma coisa pra você? – pergunta Sheyla, sua irmã mais velha.
Sheyla era uma moça de 1,68 metros de altura, 56 quilos bem distribuídos por seu esguio corpo. Olhos verdes, tal qual foram os de sua mãe, e cabelos tão claros quanto o de seu irmão. Tinha vasto busto e largo quadril, o que trazia ciúmes a Luciano pelos olhares que a perseguiam nas ruas da cidade. Em seus 23 anos incompletos, cursava o último ano da Faculdade de Direito. Apesar de todas as suas qualidades, ainda não possuía um namorado, pois julgava não ter achado ainda o homem certo para sua vida.
- Traga-me apenas alguns pães doces – respondeu-lhe Luciano, agradecendo-a e beijando-lhe a face.
Virou-se, novamente em direção à cozinha. Viu novamente os mesmos móveis velhos.
“Precisamos comprar móveis novos para esta casa. Estes já estão aqui desde que nasci”, pensou Luciano.
Subiu as escadas e entrou em seu quarto, olhando ao redor. Não mais gostava do que via. Há anos havia colado vários pôsteres de times de futebol e mulheres nuas nas paredes de seu quarto. No chão havia restos de seu último pedaço de pizza da noite anterior, livros e revistas de sua faculdade, jogados ao chão. Lembrou-se de sua mãe nesse momento, pois, apesar de ter dois empregos para poder sustentá-lo e também à sua irmã, sempre arranjava tempo para arrumar o quarto de seu filho. Lágrimas brotavam de seus olhos nesse momento. Deitou-se na cama e não agüentou de tristeza. Pondo seu livro de lado, apertou seu travesseiro contra o corpo e tentava não chorar, mas suas lágrimas já rolavam sobre a branca face.
No meio de suas lembranças, ouviu a campainha de sua casa tocar. Continou deitado, sem se importar com o que quer que fosse. A campainha tocou de novo. Novamente. Nessa 3ª vez, ele secou suas lágrimas com a manga de sua blusa e desceu, com os olhos ainda inchados pelas lágrimas. Abriu a porta e deparou-se com seu melhor amigo, Miguel.
Luciano e Miguel se conheceram na 7ª série do Ensino Fundamental, quando este havia acabado de chegar à escola. Chegara à cidade poucos dias antes de começarem as aulas. Viera de um Estado vizinho com seu pai, que acabara de separar-se de sua mãe. No 1º dia de aula, ainda muito tímido, sentou-se numa cadeira vazia ao lado de Luciano e ficou ali, calado, sozinho, visto que era o único estranho naquela turma. Nos longos três minutos que se passou antes do 1º professor aparecer, ele olhava ao seu redor, parecendo um pouco assustado com tanto barulho, mas estava apenas tentando achar alguma pessoa como ele, que também não conhecia ninguém. Para sua infelicidade, não havia. Após esse curto tempo, chega à sala Adam, seu professor de inglês. Isso foi uma grande felicidade para Luciano, visto que era sua matéria favorita desde que a conhecera em sua 5ª série. Contudo, a notícia não pareceu animar tanto assim a Miguel, uma vez que tinha grande dificuldade em falar outras línguas. Pior notícia foi quando o professor anunciou um teste de conhecimentos básicos de inglês. Para sua sorte, este seria em dupla.
Estava muito tímido em pedir para fazer com o desconhecido ao seu lado. Por sorte, Luciano notou o colega ao lado e se ofereceu para fazerem o teste juntos, pois notara no rosto de Miguel um ponto de pequeno desespero. Fizeram o teste juntos e passaram todas as outras aulas juntos. Ao sair da aula, foram para casa conversando e se encontraram na mesma rua. Miguel morava logo no início e Luciano, ao seu lado. Desde então, tornaram-se grandes amigos. Freqüentavam a casa um do outro, saiam juntos, passavam horas a fio com jogos eletrônicos. Enfim, apenas agiam como amigos que eram.
Miguel, com seus cabelos negros a esconder os olhos de mesma cor, abriu um grande sorriso ao perceber que, enfim, alguém estava abrindo a porta. Ficou um pouco preocupado ao notar o olhar de seu amigo, mas, por imaginar do que se tratavam as lágrimas já corridas, procurou apenas sorrir e confortar Luciano. Embora não tivesse ido à casa deste com tal intuito, não pensaria em outra coisa se não tentar alegrá-lo um pouco.
-Luciano, meu amigo - dizia Miguel, enquanto abria os braços para dar um forte abraço no amigo. Como você está, rapaz?
-Estou bem, e ainda melhor com sua companhia, meu garoto – respondia Luciano, com um sincero sorriso nos lábios. Entre. Está muito frio para que fiquemos a conversar na porta de casa, não acha?
Abriu caminho na porta para que Miguel entrasse. A casa parecia deserta sem a presença de Sheyla. Sempre que alguém chegava, ela era sempre a primeira a aparecer em frente à porta, com um largo sorriso e um brilho no olhar de alegrar quem quer que fosse a visita a aparecer. Sempre com o aparelho de som ligado, este acabava por se tornar um animador sem precedentes. Agora que ela saíra para ir ao supermercado, o rádio se tornou apenas mais um dos móveis da casa, a televisão assistia às poltronas da sala e as paredes pareciam olhá-los incessantemente.
-Realmente está frio aqui do lado de fora – disse Miguel, aceitando o convite para entrar.
Rangia o assoalho de madeira sob os pés de Miguel. Não eram somente os móveis que precisavam ser trocados. A casa também precisava de uma reforma. Sentou-se em uma das poltronas à sua frente, para a qual Luciano estava apontando. Luciano sentou-se em uma das poltronas em frente à ocupada por Miguel.
-O que o trazes aqui em um dia tão frio como este, Miguel? – perguntava Luciano.
-Minha irmã. Ela está internada o hospital da cidade. Queria que você fosse vê-la comigo. – respondia Miguel, de cabeça baixa.
-Mas ontem mesmo ela estava bem. O que ocorreu? De que ela sofre?
-Não se sabe. Ontem ela estava muito bem. À noite, foi para cama um pouco mais cedo que o comum, mas hoje de manhã ela não acordou. Minha mãe chamou os médicos no mesmo instante. Ela suava frio, estava vermelha, mas não abria os olhos.
A face corada de Luciano tornou-se pálida. O que quer que fosse o que ocorrera com Victória, era algo muito sério. Levantou-se, olhando para Miguel.
-Somente vou tomar um banho e trocar de roupa. Espere-me enquanto isso, pois estarei de volta rapidamente.
Dizendo isso, deixou o amigo na sala e foi em direção ao seu quarto. Olhou para seus livros no chão. Lamentava ter que adiar mais uma vez suas leituras, mas algo mais importante tinha de ser feito no momento. Foi ao guarda-roupa, pegou uma camisa de manga “três quartos” azul, uma calça jeans e seguiu para o banheiro.
Abriu a porta, entrou no banheiro e deixou que a porta se fechasse atrás de si. Trancou-a. Pôs as roupas que trouxera em cima de um gancho preso à parede e começou a tirar suas roupas. Ao tirar a camisa, olhou-se no espelho.
“Acho que esse tempo de academia surtiu um bom efeito”, pensava Luciano. E riu-se dos próprios pensamentos, enquanto fazia algumas poses em frente ao espelho. Sempre perdia alguns minutos enquanto se divertia com seu próprio reflexo. Lembrava da época em que seu corpo não mostrava nada se não sua magreza excessiva. Passou a mão por entre os cabelos loiros. Abriu o zíper de sua calça e tirou-a, pondo-a dentro do cesto de roupas sujas. Retirou sua sunga e fez o mesmo. Olhou-se novamente no espelho, a olhar agora como estava seu corpo da cintura para baixo. Não perdeu muito tempo com isto, pois estava com mais pressa que o normal.
Fechou a cortina do box e abriu a válvula do chuveiro. Deixou que a água quente caísse sobre seu corpo nu por alguns segundos. Pegou um sabonete na saboneteira e começou a esfregar seu corpo, a começar pelos braços. Ao terminar, procura seu shampoo no chão e despeja um pouco de seu conteúdo nas mãos úmidas. Esfrega-o sobre sua cabeça, formando uma densa espuma. Retira o produto de seu cabelo e desliga o chuveiro.
Pega sua toalha e começa secar o corpo. Enquanto isso, Miguel espera pacientemente ainda sobre a poltrona. Olhava um velho quadro por sobre a parede da sala. Mostrava uma casa em um campo. Parecia-lhe um lugar conhecido. A casa era grande: tinha dois andares e muitas janelas. Várias árvores em volta dela e um pôr-do-sol como plano de fundo. Ao fixar o olhar somente sobre a casa, notou algo que parecia um tanto assombroso: na 3ª janela do 2º andar, havia uma mulher. Ela parecia aflita, parecia procurar por socorro. Levantou-se para olhar mais de perto o rosto da mulher, assustado.
-Estou pronto, Miguel. Vamos? – dizia Luciano, que já havia terminado seu banho.
Miguel põe sua mão sobre o peito. Assustou-se com a presença repentina de seu amigo.
-Sim, vamos – respondeu Miguel.
Luciano foi à frente, e abriu a porta para que Miguel passasse. Este seguiu logo atrás, mas, antes de sair, deu uma última olhada no quadro. Sentiu um arrepio ao fitá-lo novamente. Parecia haver mais coisas naquele quadro do que se podia ver.